Entre livros e gravações de sons marítimos, aprofundei-me cada vez mais nos acontecimentos da infância que fizeram de mim uma criança do mar mesmo sem nunca ter velejado ou mergulhado em águas mais profundas.

Joel Robison/Boy Wonder
Lembro-me de que enquanto todos reclamavam da repetição eu, que já gostava de ver um mesmo filme várias vezes, pulava de alegria toda vez que passava Free Willy na televisão; quando o Planeta Terra, na TVCultura, era sobre o mar – ou qualquer coisa que nele vivesse – eu não desgrudava os olhos da tela; e entre as fitas VHS da National Geographic (cuja coleção há muito tempo ocupa a maior parte da estante) minhas favoritas eram “Baleias Assassinas: Lobos do Mar” e “A frota perdida de Guadalcanal”.
Esta segunda (sobre navios aliados e japoneses naufragados que transformaram o canal norte da ilha num verdadeiro cemitério naval) foi provavelmente o que primeiro me despertou a curiosidade sobre a marinha e sobre guerras modernas (pelas antigas, com cavalos, espadas, lanças e arcos eu já me interessava há um certo tempo). A partir disso, sempre que ouvia aquelas conversas sobre preferências militares fazia questão de contribuir para a discussão e falar do meu desejo de entrar para a marinha. Quando soube que o alistamento não era obrigatório para mulheres o discurso não mudou: “Para mim não teria problema se fosse obrigatório, eu ia pra Marinha” e ainda hoje, se alguém inicia o assunto minha posição mantém-se a mesma.

Joel Robison/Boy Wonder
À parte isto, posso também afirmar seguramente que até os 14 anos biologia marinha ocupou um importante lugar entre minhas considerações a respeito do que estudar na universidade… Acho que no fim das contas, eu queria ser uma oficial da Marinha graduada em biologia marinha, para que, assim, nada me tirasse do mar, dos barcos, das baleias…
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Não sei dizer por que razão gostava tanto dos tais sons quando pequena. Acho que ouvi-los fazia com que eu me sentisse momentaneamente submersa num universo do qual eu queria – de todas as maneiras possíveis – fazer parte.
Hoje acho curioso como o canto das baleias pôde provocar tamanha agitação nas ondas de meu subconsciente, trazendo à tona tantas memórias de uma das minhas “existências” ao mesmo tempo que tem proporcionado (desde os primeiros segundos naquele site) um estado mental de absoluta calmaria, como se mergulhasse nas águas dessas memórias e elas instantaneamente silenciassem tudo o que há na superfície.
E agora, essa pequena expedição pelos mares de descobertas que naveguei na infância me leva a concluir que nem sempre compreendo de imediato os meus gostos, mas descobrir as razões deles depois de tanto tempo aumenta em muito suas intensidades e os transforma em fonte da mais profunda inspiração.
Nara Castro