Um passo lusitano – parte I

Eu criei a mania de gravar milimetricamente certos passos meus.

Não os passos da vida, nem os passos de uma tarefa, mas os passos mesmo, daqueles que damos com os pés um na frente do outro.

Quando estou num lugar do qual não quero me esquecer escolho um espaço no chão e ponho um dos pés ali, conto alguns segundos – porque é como se estivesse carimbando– olho à volta e depois saio andando.  Pronto, ficou ali um pedaço de mim e levo comigo um pedaço dali.

Não sei dizer quando foi que fiz isso pela primeira vez porque, na verdade, eu costumo esquecer logo depois e aí só me lembro se – e quando –  passar por perto outra vez.  De qualquer modo, voltando ou não, estou sempre certa de que troquei algo meu por algo do lugar e de que esse “algo” não é um simples passo num pedaço de chão, nem um instante de tempo, nem um olhar pelo que está à volta.  Sei também que não foi simplesmente uma expiração por uma inspiração.

Quando estava em Coimbra dei um passo desses na Parça 8 de Maio, um que eu não esqueci logo nem muito depois . É que Coimbra não era apenas um lugar que eu não queria esquecer; era um lugar que eu não queria deixar. E até hoje não quero, embora já tenha deixado há mais de um ano.

Continua

Nara Castro

Dom Luís de metal.

Na primeira vez que passei pelo Rio Douro eu estava a caminho de Vila Nova de Gaia depois de ter passado a manhã e o início da tarde a andar pelo Porto.  Eu e a mãe cruzamos a ponte Luís I a pé e isso levou certo tempo, especialmente porque eu queria que a cruzada se prolongasse pelo máximo que fosse possível.

Os carros e o vento faziam barulho, as ondas lá embaixo também.  Os três juntos compunham uma sinfonia que arruinava qualquer intenção de manter um diálogo, o que eu achei muito conveniente porque podia usar aquilo como desculpa para o meu silêncio que na verdade, já durava quase o dia todo.

Não é que eu não goste de conversas, nem que goste de barulho, mas naquele dia eu precisava não falar e quando não se está só, ficar em silêncio não é tão fácil quando parece. Nessas horas, barulho que vem de fora ajuda.

Embaixo passava a água e por ela, um barco; em cima, suspensos por todo aquele ferro – unido conforme o projeto de um sócio do Gustave Eiffel – passavam os outros, a mãe, eu e meu silêncio. Quando pusemos o pé na ribeira de Gaia, não me ocorreu agradecer Dom Luís e mais tarde, quando ele nos atravessou de volta para o Porto, também não.

Não se esquece de agradecer um rei assim, simplesmente, muito menos um de ferro e por isso eu não poderia dormir tranquila se não soubesse que logo volto para os devidos agradecimentos… e p’ra ir de uma margem à outra de novo, mais uma vez… e outras tantas.

Nara Castro

Uma vida no mar – Parte II

Entre livros e gravações de sons marítimos, aprofundei-me cada vez mais nos acontecimentos da infância que fizeram de mim uma criança do mar mesmo sem nunca ter velejado ou mergulhado em águas mais profundas.

Joel Robison/Boy Wonder

Lembro-me de que enquanto todos reclamavam da repetição eu, que já gostava de ver um mesmo filme várias vezes, pulava de alegria toda vez que passava Free Willy na televisão; quando o Planeta Terra, na TVCultura, era sobre o mar – ou qualquer coisa que nele vivesse – eu não desgrudava os olhos da tela; e entre as fitas VHS da National Geographic (cuja coleção há muito tempo ocupa a maior parte da estante) minhas favoritas eram “Baleias Assassinas: Lobos do Mar” e “A frota perdida de Guadalcanal”.

Esta segunda (sobre navios aliados e japoneses naufragados que transformaram o canal norte da ilha num verdadeiro cemitério naval) foi provavelmente o que primeiro me despertou a curiosidade sobre a marinha e sobre guerras modernas (pelas antigas, com cavalos, espadas, lanças e arcos eu já me interessava há um certo tempo). A partir disso, sempre que ouvia aquelas conversas sobre preferências militares fazia questão de contribuir para a discussão e falar do meu desejo de entrar para a marinha. Quando soube que o alistamento não era obrigatório para mulheres o discurso não mudou: “Para mim não teria problema se fosse obrigatório, eu ia pra Marinha” e ainda hoje, se alguém inicia o assunto minha posição mantém-se a mesma.

   Joel Robison/Boy Wonder

À parte isto, posso também afirmar seguramente que até os 14 anos biologia marinha ocupou um importante lugar entre minhas considerações a respeito do que estudar na universidade… Acho que no fim das contas, eu queria ser uma oficial da Marinha graduada em biologia marinha, para que, assim, nada me tirasse do mar, dos barcos, das baleias…

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Não sei dizer por que razão gostava tanto dos tais sons quando pequena. Acho que ouvi-los fazia com que eu me sentisse momentaneamente submersa num universo do qual eu queria – de todas as maneiras possíveis – fazer parte.

Hoje acho curioso como o canto das baleias pôde provocar tamanha agitação nas ondas de meu subconsciente, trazendo à tona tantas memórias de uma das minhas “existências” ao mesmo tempo que tem proporcionado (desde os primeiros segundos naquele site) um estado mental de absoluta calmaria, como se mergulhasse nas águas dessas memórias e elas instantaneamente silenciassem tudo o que há na superfície.

E agora, essa pequena expedição pelos mares de descobertas que naveguei na infância  me leva a concluir  que nem sempre compreendo de imediato os meus gostos, mas descobrir as razões deles depois de tanto tempo aumenta em muito suas intensidades e os transforma em fonte da mais profunda inspiração.

Nara Castro